segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Fragmentos de vida



 Foto Aino Kirillova

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.

Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo.

José Saramago in Palavras para uma cidade

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Tem dias que tudo está em paz.....



Foto Acervo Afetivo


Reencontros que deixam a gente em estado de poesia!

(quisera eu ter guardado aquele cheiro num vidrinho....) 


quarta-feira, 20 de julho de 2016


Foto Darren Stapies


Plantei estrelas no céu
E sonhos por toda parte
Reguei de amor essa cidade
Filmei com luzes e efeitos
Fiz trilha pra eternidade
Fiz noites de lua infinita
Brilhando ao cair da tarde
Quis tanto, fiz tanto
Entretanto lamento
E alguma coisa me diz
Faltou um final feliz

Pedro Luís - Zélia Duncan


terça-feira, 19 de julho de 2016




Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)

 Cecília Meireles

 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Por todos!


Foto Simone Gallego


Por todos aqueles que se dirigiam à vida, que só esperavam vida
e que, sem saber, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
por todos aqueles que acordavam de manhã, que se alimentavam
de ilusão, invencíveis perante a sua teimosia inocente, e que, na
dobra de um instante, desprotegidos da solidão, acordados a meio
de um sonho, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
por todos aqueles olhares que refletiam a luz do dia, montras de
segredos, rostos que lembraremos com um sorriso brando e que,
sem motivo, caíram desamparados no abismo opaco da morte;
estas palavras frágeis e inúteis, este tempo breve e insuficiente.
Existiram como nós, foram gente como nós, sentiram como nós.
Por todas as palavras que disseram, pela forma humana como as
pronunciaram, pela memória incandescente da sua voz, pelo seu
tempo de pessoas, estas palavras incapazes, este tempo incapaz
e o caminho x ou y que escolhemos para segui-los.

José Luís Peixoto 
 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Preferências


Foto Simone Gallego


Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

Manoel de Barros 



sexta-feira, 8 de julho de 2016




 Foto Bassam Khabieh

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.


Manuel Bandeira


quinta-feira, 7 de julho de 2016

E ele continua a brilhar apesar de.....

 

Foto Simone Gallego

Todo mundo é parecido quando sente dor
Mas nu e só ao meio-dia, 

Só quem está pronto pro amor

Dulce Quental

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Obrigada, Vicente Pereira!



 Cartaz do espetáculo Solidão, a comédia

-  Cada gole parecia que era o último... Isso me valeu mais que qualquer bíblia!
Tanta coisa na vida é assim...
(Toma sopa)
– A própria vida.
(Toma sopa.)
– Não sei porque a gente tem tanto medo. Parece que o que move o homem é o medo. O homem tem medo de tudo. Medo de morrer. Medo de viver. Tem um escritor que diz que nós vivemos um momento muito delicado. Que chegou a hora de optar entre o temor e o amor, e que com toda certeza, o homem seria inclinado inevitavelmente para a segunda opção. Pra mim todo o segredo está no amor. Acho que tudo é mais simples. Tenho certeza. Tudo vem do amor e vai pro amor. Não há o que temer.
(Entra a música)
Se há algo que possa afinar o homem com sua alma, é o amor.


Solidão, a comédia - Vicente Pereira 


Diogo e Vicente

Reler Vicente Pereira foi poder voltar a um mundo perdido dentro da minha memória e  sentir o riso, o choro, o desconforto e o sarcasmo que explodiam em seus textos... tudo de novo, e de novo e de novo! Voltar ao espetáculo "Solidão, a comédia" foi o melhor desses momentos, por certo!

O final do espetáculo, interpretado com grandiosidade por Diogo, foi se descortinando com tanta clareza.... com tanta exatidão, que me fez pensar sobre essa coisa estranha chamada "cérebro".

O texto acima é do último esquete.
Um diálogo muito duro com a velhice e com a morte.

Findo o espetáculo e em meio às palmas Diogo retorna ao palco. Não, porém, como personagem, mas como ator. Não para agradecer, mas deixar um último legado de  emoção à noite.

Contou à plateia que o avô sempre bebia sopa, calmamente, ruidosamente (reproduzindo o gesto). Após cada colherada Diogo fazia uma cara de aprovação à iguaria..... uma a uma.... sinalizando que era preciso saborear e apreciar as coisas..

E fez a transposição da metáfora, lembrando a todos que a vida deveria ser celebrada nas pequenas e grandes coisas.....

Saboriou ruidosamente e felizmente cada colher daquela sopa imaginária, percorrendo cada canto daquele palco mágico.... olhando serenamente para a plateia, tocada pela surpresa e pelo gesto.

Sábios senhores.... Diogo, esse avô e Vicente!

Gratidão por fazerem parte do meu universo cultural (que não, não estava perdido, mas apenas adormecido em minha memória).


ps: acabei de descobrir que este sábio avô era do Vicente, e não do Diogo!  :o)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Só rindo!





Não é que eu só admita a comédia, mas juntar muitas pessoas num teatro e não ouvir um único riso? Isso me parece um desperdício de vida

Vicente Pereira