quinta-feira, 28 de maio de 2009



Ilustração Edu


Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz

Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz

Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz


Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, picharam no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

Chico Buarque


quarta-feira, 27 de maio de 2009




















Foto João Santiago



 Sedução
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia para eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado

 
















Foto Ricardo Espinheira


Saber é pouco

como é que a água do mar
entra dentro do coco?


Paulo Leminiski 

segunda-feira, 25 de maio de 2009















Foto Ivo Rodrigues



A estrada do amor, a gente já esta mesmo nela, desde que não pergunte por direção nem destino. E a casa do amor - em cuja porta não se chama e não se espera - fica um pouco mais adiante.

João Guimarães Rosa in Grande Sertão: veredas
Foto Reuters
O Outono é uma segunda Primavera quando cada folha é uma flor

Albert Camus

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Desenho - Marlowa


Do alto dos quarenta e quatro
miro meu retrato de anos atrás.
Tenho ar preocupado, um riso forçado...
num branco sem paz.

Do alto dos quarenta e quatro
tiro meus sapatos, ando pelo cais.
Mais lúcido que alucinado,
aprendi um ditado: “Prendam Barrabás!”
Vivo entre verso e prosa, ataque e defesa.
Vivo muito mais.

itamar assumpção