terça-feira, 30 de junho de 2009



Corroendo
As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
Tempo.

Vívida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
Tempo.

Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento
Como te chamas?
Tempo.

Irreconhecível
Me procuro lentamente
Nos teus escuros.
Como te chamas?
Tempo.

Hilda Hilst in Da morte. Odes Mínimas.

quinta-feira, 25 de junho de 2009


Foto Luís Filipe C.

O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. Era a tua,
a tua voz que dizia as palavras da vida. Era o teu rosto.
Era a tua pele. Antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
José Luís Peixoto in As tormentas


Pro Renato, com amor!

 

Foto Carlos Alberto


É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

Hilda Hilst in Júblilo, Memória, Noviciato.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Foto Raquel Hipólito


Do lado de cá da cidade faz muito frio.
Talvez por isso os amigos bebam demais.
Talvez por isso eu sempre cruzo as figuras no cinema.
Do lado de cá da cidade existem acordos fraternos,
talvez por isso as pessoas estão sempre magoadas umas com as outras,
e choram tanto, e escrevem os nomes das outras em folhas amarelas de cadernos,
e bebem tanto.
Do lado de cá da cidade nunca faz sol.
Talvez por isso, tantos blues, e a garrafa de café sempre vazia,
os dedos calejados da máquina de escrever, e o copo de gim pela metade.
Do lado de cá da cidade chove todas as noites,
talvez por isso as pessoas tenham tantas idéias mirabolantes e irrealizáveis,
talvez por isso as mesas no bar estão sempre reservadas, talvez por isso eles bebem tanto.
Do lado de cá da cidade faz frio, existem acordos fraternos, nunca faz sol,
chove todas as noites,
as pessoas bebem demais, e são todas muito sensíveis.
Eu já estive uma vez do outro lado da cidade, só uma vez.

Mário Bortolotto



Não sei se eu estou pirando
Ou se as coisas estão melhorando
Não sei se eu vou ter algum dinheiro
Ou se eu só vou cantar no chuveiro
Estou no colo da mãe natureza
Ela toma conta da minha cabeça
É que eu sei que não adianta mesmo a gente chorar
A mamãe não dá sobremesa

Rita Lee

segunda-feira, 22 de junho de 2009



transformar esse limão em limonada
passar da solidão pra doce amada
pegar um trem pra próxima ilusão
come on baby
segurar esse rojão, metade cada
seguir o coração, em disparada
numa estrada que só tem a contramão
come on baby
arriscar não passe só de palhaçada
faz de conta que o que conta, conta nada
apostar na falta de exatidão
come on baby
repartir toda noite em vários dias
repetir tudo o que seja alegria
e sonhar na corda bamba da emoção
come on baby
voar sem avião, sem ter parada
Inverso da razão, ou tudo ou nada
fazer durar a chuva de verão
come on baby
você e eu, luar, beijos, madrugada,
a vida não tá certa, nem errada
aguarda apenas nossa decisão
itamar assumpção


sexta-feira, 19 de junho de 2009



Amar é sofrimento de decantação,
produz ouro em pepitas,
elixires de longa vida,
nasce de seu acre
a árvore da juventude perpétua.
É como cuidar de um jardim,
quase imoral deleitar-se
com o cheiro forte de esterco,
um cheiro ruim meio bom,
como disse o menino
quanto a porquinhos no chiqueiro.

É mais que violento o amor 
 
Adélia Prado

quarta-feira, 17 de junho de 2009

ilustração Nina Perro

A moça, recostada à porteira, olhava os longes...
A vaquinha Cambraia mugia.
O cachorro Piloto ladrava.
O vento inventava verbos no infinito:
partir... andar... correr... fugir... voar.... voar!
A vaquinha mugia...
O cachorro ladrava...
O vento fazia cosquinhas nas regiões poplíteas da moça

Mário Quintana

 

terça-feira, 16 de junho de 2009



Vem meu amor
Me leva pra sempre
Mais de uma vida tem que existir
Pra que eu possa com você ir mais
Mais um lugar
Você que é dono do tempo
Das minhas horas sempre
Eu me abandono em tuas mãos
E você me devolve
O que de mim eu mesma nem sabia
Vem descobrir a minha alegria
Amar você é muito mais
A brisa vem e amansa o vento
Guardado em mim seu movimento
Pra sempre é palavra infinita
Que me aparece e tem que ser dita

O dia que amanhece se repita
Pra que vale a mais essa paixão
Amor assim jamais seria amor em vão

Por onde passa o coração
Por entre o tórax e o pulmão
Você só poderia vir morar por aqui

Fernanda Porto

quarta-feira, 10 de junho de 2009

É, hoje eu tenho sede!

Foto Fabi Farias

peixe
uma carapaça seca
uma armadura fosca
um aquário vazio
um peixe de pó se debate
se desfaz
desaparece
fica só a sensação de sede
de deserto na garganta

Onde o sol anterior?

Fabrício Corsaletti

Foto José Constantino


Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Adélia Prado in Poesia Reunida




Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco d'água
E os meus olhos pedem teu olhar

A planta pede chuva quando quer brotar
O céu logo escurece quando vai chover
Meu coração só pede teu amor
Se não me deres, posso até morrer

Gilberto Gil

 

segunda-feira, 8 de junho de 2009