segunda-feira, 31 de agosto de 2009


Foto Marcelo Seixas

Lua cheia
Que ilumina o meu caminho
Diz a ela
Que eu quero ficar mais sozinho

Bem quietinho
Contemplando o firmamento
Abraçado com ela
No meu pensamento

Lua, diz que estou
Passando uma fase minguante
Preamar chegou
Só posso voltar se baixar a maré

Mas a gente só
Olhando um pouquinho distante
É que vê melhor
Se o mar vai mudar ou não vai mais dar pé

A solidão não é lava incandescente
Porque não ferve, não estronda e não se vê borbulhar
Sua visão me vem mais suavemente
Cândidas neves
Escorrendo sob o claro luar

Lua cheia clareou
A minha estrada
Lua cheia, tua luz
Prateada

Zé Renato



 
Entardece…
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui…)

João Guimarães Rosa



Foto Sérgio Redondo

As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar

Caetano Veloso

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2009





Quem vai pagar as contas deste amor pagão
Te dar a mão, me trazer à tona prá respirar

Quem vai chamar meu nome
Ou te escutar

Me pedindo prá apagar a luz

Amanheceu, é hora de dormir

Nesse nosso relógio sem órbita

Herbert Vianna




Foto Filomena Galego

E eu ainda um dia
vou entender
a luz que só cintila

exatamente a partir
do teu sorriso

da tua palma quente
do teu sorriso

da tua palma quente
- polpa e leite

E lua

Maria Tereza Horta in Vozes e Olhares no Feminino

quinta-feira, 27 de agosto de 2009



Artigo II (Ato Institucional Permanente)

Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Thiago de Mello




Nada vai permanecer
No estado em que está
Eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar
Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
E eu pensando em ter você
Pelo tempo que durar
Coisas vão se transformar
Para desaparecer
E eu pensando em ficar
A vida a te transcorrer
E eu pensando em passar
Pela vida com você

Marisa Monte
 

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Ilustração Marlowa
Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu rosto outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. De Sangue.
De escarlate.

Hilda Hilst



Foto Glauter Coelho

E o meu lugar é esse
Ao lado seu, no corpo inteiro
Dou o meu lugar pois o seu lugar
É o meu amor primeiro
O dia e a noite
as quatro estações

Nando Reis e Samuel Rosa
 

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Foto Wagner dos Santos
De delicadeza me construo.
Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.

Hilda Hilst

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Foto Sandro Porto
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Fernando Pessoa, 15-11-1930.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009



Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...


Cora Coralina

Foto Rodrigo Morales

Veio até mim
Quem deixou
Me olhar assim
Não pediu
Minha permissão
Não pude evitar
Tirou meu ar
Fiquei sem chão... 
 
Céu

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Foto Walter Elias

Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar

Vanessa da Mata / Liminha


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Foto Pedro Meira
O mundo é feito de pontos. São muitos se forem pontos de vista. Poucos se forem pontos estratégicos. Muito úmidos se forem pontos de chuva. O mais gostoso é ponto de encontro, mas às vezes desencontra. Ou pontos de luz, um homem e uma mulher nus. Todos são pontos. O caminho entre dois, uma reta. Uma linha. Um caminho que caminha sozinho. Fim da linha. Ou do fio. Fio da meada é na conversa. Conversas são feitas de pontos de enfoque. O palco também. Amores são pontos em comum. Os pontos são um.
Estrela Leminski




O meu amor é teu
O meu desejo é meu
O teu silêncio é um véu
O meu inferno é o céu
Pra quem não sente culpa de nada
E se não for, valeu
E se já for, adeus
O dia amanheceu
Levante as mãos para o céu
E agradeça se um dia encontrar
Um amor, um lugar
Pra sonhar
Pra que a dor possa sempre mostrar
Algo de bom

Eu ainda lembro
O dia em que eu te encontrei
Eu ainda lembro
Como era fácil viver
Ainda lembro

Herbert Vianna

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


é preciso estar escuro pra eu poder dormir em paz
mas em mim há uma luz que não sei como apagar
eu canto incontido cortando o escuro
sexto sentido saltando o muro

itamar assumpção

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Foto FGV


pra semana...
                 
O sinal...
Eu procuro você...
                 Vai abrir! Vai abrir!
Prometo, não esqueço
                Por favor, não esqueça 

Não esqueço, não esqueço

               Adeus!

                                       Paulinho da Viola



Foto Tiago Pereira


Quero comer bolo de noiva, puro açúcar
puro amor carnal disfarçado de corações e sininhos:
um branco, outro cor-de-rosa, um branco, outro cor-de-rosa

Adélia Prado



(...) essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos.

João Guimarães Rosa

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Foto Ricardo Ramos
Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise


Chico Buarque

quinta-feira, 6 de agosto de 2009


Foto Erik Reus

POEMA MESTIÇO

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer

Mia Couto
 

casa com cachorro brabo
meu anjo da guarda
abana o rabo

P. Leminski
Foto Daniela Vasquez


Não quero um dia a mais
quero um dia de paz
Não quero o vendaval
Só o sono e o sonho dos mortais
Não leve a mal
sou só mais um
quero uma noite tranquila
E um amanhecer comum
Ainda é possível respirar
As cores ainda trazem emoção
Um verso pra fazer uma canção
Às vezes tem a força da bomba nuclear
Outono também traz inspiração
Tantos invernos já inesquecíveis
Nas madrugadas mornas do verão
Na simplicidade eu vejo as coisas mais incríveis


Herbert Vianna 



Foto Carlos Pereira

 
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do
nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a ideia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles