segunda-feira, 8 de junho de 2009

















Foto Reuters
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha


Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)


Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel


Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst - Roteiro do silêncio (sonetos que não são)

Um comentário:

  1. Admiro essa sua capacidade de conciliar forma e conteúdo, foto e texto, vivência e registro. Torna vívida a palavra 'práxis'. Divide um tanto disso comigo?

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