quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Foto Pedro Viana

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

Arnaldo Antunes

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ilustração Samuca
 
Não há forma de explicar tudo o que se diz quando se diz sofrer

José Luís Peixoto in Nenhum Olhar

Ps: É, hoje eu tô triste!

Foto Nataliya

Meus bons amigos, onde estão?
Notícias de todos quero saber
Cada um fez sua vida
De forma diferente
Às vezes me pergunto
Malditos ou inocentes?

Nossos sonhos, realidades
Todas as vertigens, crueldades
Sobre nossos ombros
Aprendemos a carregar
Toda a vontade que faz vingar
No bem que fez pra mim
Assim, assim
Me fez feliz, assim...

O amor sem fim
Não esconde o medo
De ser completo
E imperfeito

Fernando Magalhães
Foto Pedro Viana
 
Nada na minha vida se havia perdido. Tudo eram ondas, em vaivências.

Mia Couto in A varanda do frangipani

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Foto Mario Esteves


As ruas desse lugar
Conhecem bem
As noites longas, as noites pálidas
Quando eu te procurava
As casas desse lugar
Se lembrarão
Do nosso abraço, da sombra insólita
Espelho azul no chão
As ruas desse lugar
Agora eu sei
Sempre escutaram a nossa música
Quando eu te respirava
As pedras municipais
Se impregnaram
Da dupla imagem, da dupla solidão
A sombra ali no chão
E lá no céu constelações
Num arranjo inusitado
O seu nome desenhado
Pelo menos tinha essa ilusão
E lá no céu os astros
Num arranjo surpreendente
Se buscavam como a gente
Pelo menos tinha essa ilusão
São milhares de estrelas
Singulares letras vivas no céu

Samuel Rosa e Chico Amaral









ilustração Edward Kinsella


Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: Por amor.

Clarice Lispector


Tu serás aquele que sonha e não pergunta se é verdade. Serás aquele que ama e não quer saber se é certo.

Mia Couto in A varanda do frangipani

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Foto Henrique Nardi
Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, oh, bem amada
Princesa, olhos d'água
Menina da lua
Quero te ver clara
Clareando a noite intensa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura
Quero que desprendas
De qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo
O teu tear
Tens na mão, querida
A semente
De uma flor que inspira um beijo ardente
Um convite para amar
Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, oh, bem amada
Princesa, olhos d'água
Menina linda

Renato Mota
Ilustração Nicoletta Ceccoli

Tarde de vento.
Até as árvores
querem vir para dentro.


Paulo Leminski

quarta-feira, 23 de setembro de 2009


Foto Niko Guido
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Olavo Bilac (dualismo)
Foto Márcio Negrão

Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No Ano Novo eu começo a trabalhar!

Renato Russo

Eu sempre me emociono quando ouço essa música!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Foto Paulo Dias de Souza

O melhor o tempo esconde,
longe,
muito longe
mas bem dentro aqui

Caetano Veloso

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Foto Ayam

O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro
para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças...
Cecília Meireles

Ilustração de Evelina Oliveira

Estrela de cinco pontas
Cinco estrelas no cruzeiro
Trilhões de estrelas no céu
Três pontas mil corações
E o menino brasileiro
Com os olhos, duas contas
Atravessa o imenso véu
De brilhos e escuridões

Que Deus segue esse menino?
Que deuses o seguirão?
Meu verso de sete patas
Notas desta melodia
Quem me ensina essa lição?
Quem me explica esse destino?
Que grito dentro das matas
Agora responderia?

Não sei mas ando com ele
Às vezes voamos juntos
Pedras super preciosas
De aves nas alturas tontas

Tocamos vários assuntos
Às vezes roço-lhe a pele
E somos estrelas rosas
Três, quatro, cinco mil pontas

Milton Nascimento e Caetano Veloso

quarta-feira, 16 de setembro de 2009


Foto Guilherme Limas

Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir.

Renato Russo

terça-feira, 15 de setembro de 2009



Foto Antonio Silva


Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: "Coitado, até essa hora no serviço pesado". Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

Adélia Prado

Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque

Fama de porra louca, tudo bem!
Minha mãe é Maria Ninguém


Rita Lee e Zélia Duncan

segunda-feira, 14 de setembro de 2009


                                    Foto Leonardo Mercon

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apóia.

Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.

Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.


Adélia Prado

sexta-feira, 11 de setembro de 2009




Coisa linda
é mais que uma idéia louca
Ver-te ao alcance da boca
Eu nem posso acreditar

Coisa linda
minha humanidade cresce
Quando o mundo te oferece
e enfim te dá
tens lugar!

Promessa de felicidade
festa da vontade
nítido farol
sinal novo sob o sol
vida mais real

Coisa linda
lua, lua, lua, lua
Sol
palavra
dança
nua
pluma
tela
pétala

Coisa linda
desejar-te desde sempre
ter-te agora
um dia e sempre
uma alegria pra sempre

Caetano Veloso
Pro Renato!

Foto Paulo Henrique Rodrigues

A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu, se era possível, ela ainda mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus.

Machado de Assis in Dom Casmurro



Foto João Steck

vou dar um jeito
de desfazer tudo direito
desplantar soja e brachiaria
deixar viver o cerrado
corpo entortado
vida encarnada
com óleo de pequi
e ali
e por todo lugar
este poema
espalhar

espalhar
sem pena
para que mais e mais pessoas
possam sentir
o susto e a dor de viver sem o cerrado


fernando cisco zappa

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Um poeta desfolha a bandeira
E eu me sinto melhor colorido
Pego um jato, viajo, arrebento
Com o roteiro do sexto sentido
Faz do morro, pilão de concreto
Tropicália, bananas ao vento

Gilberto Gil e Torquato Neto

Van Gogh - semeador

Saiu o semeador
a semear.
Semeou o dia todo
e a noite o apanhou
ainda
com as mãos cheias de
sementes.
Ele semeava tranquilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.

Cora Coralina

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


Foto Wania Pedroso

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muitos vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.

João Guimarães Rosa


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Foto Maria Salvador

Esperança é como o girassol que à toa
se vira em direção ao sol. Mas não é à toa: virar-se
para o sol é um ato de realização de fé.

Clarice Lispector



Foto Flávio Morais
Mesmo que nunca se aprenda
Tu me ensina a namorá
Que eu te ensino a fazê renda
Que apesar do céu, do carnaval
E do inferno dessa guerra
E da terra presa ao bem e ao mal
Reine paz na nossa tenda
De cetim o céu, de seda o chão
E as cem brisas que segredarão
Pelos mundos nossa lenda

Mesmo que nunca se aprenda
Eu te ensino a fazê renda
Que mais posso te ensinar
Eu que não porto outra prenda?
Que só sei dar vida à trama vã
Rei das belezas fugazes
Tu que trazes drama à vida sã
Quem sabe isso ainda se estenda
Tu me ensina amor a namorá
E eu talvez te ensine a me ensinar
Teça-se assim a fazenda
E a nós dois tudo se renda

Caetano Veloso

quinta-feira, 3 de setembro de 2009



Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade



Foto Rui Cruz

Vieste a hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro, velando por mim


Vitor Martins



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Foto AP

O amor é quando a gente mora um no outro.

Mário Quintana


Foto Miguel Castro
A noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!

D'olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d'alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

Lá vem a tua agora... Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa,

Que a minh'alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!...

Florbela Espanca in Poemas

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Foto Carla Salgueiro
É este meu poema ou é de outra?
Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?

Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa escondidas
(Para que seja eterno o meu castigo)

Lançam vozes na noite tão ouvidas?
Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.


A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos remos que inventei.

Hilda Hilst in Cascos & Carícias & Outras Crônicas.

(nada como ler direto da fonte! agora, quase dois meses depois, tá corrigido!)

Foto José Barreiro


cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo

Mia Couto