sexta-feira, 30 de outubro de 2009



Poesia em forma de música!
Nessas horas é que me pergunto: porque ainda não voltei pra sampa?!?!?!?!

Sucesso, sucesso, sucesso!
:o)

Foto Pedro Casquilho

Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente.

Clarice Lispector (do conto Perdoando Deus)




Às vezes eu quero chorar
Mas o dia nasce e eu esqueço
Meus olhos se escondem
Onde explodem paixões
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa prá lembrar
Às vezes eu quero demais
E eu nunca sei se eu mereço
Os quartos escuros pulsam
E pedem por nós
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa prá lembrar

Se você quiser eu posso tentar
Mas eu não sei dançar tão devagar
Prá te acompanhar

Alvim L.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009



Tem sido complicado. A vida tem sido complicada. Ando pensando em substituir os quadros na parede. Em providenciar uma exposição de cicatrizes. Andei muito triste no último ano. As pessoas às vezes não percebem. É que eu disfarço muito bem. Acho que também entristeci algumas pessoas. A essas eu peço desculpas. Nunca foi intencional. É que eu não sou mesmo o sujeito mais correto do mundo. Sou um cara torto por natureza e não peguei senha pra ir pra reforma. Hoje conversando com meu irmão Rubens K enquanto eu andava pela rua, é que eu entendi esse hiato, esse buraco em que me meti, esse vazio que eu não explico porque tenho medo de ouvir as respostas que eu mesmo já tenho prontas. Então vou fazer alguma coisa. Talvez começando pelos quadros na parede. Vou tomar um banho de reparil. Fico olhando pra foto da minha filha e entendo onde foi que acertei. Acho que acertei em alguns textos também. Um ou outro blues. Mas foi só, né? No resto todo parece que eu errei muito, né? A margem de acertos é muito pequena pra um cara a beira dos 45, você pode dizer. Bem, mas eu nem esperava chegar aos 45. Então tô meio que no lucro (...).
Quando voltei pra casa hoje fiquei pensando naquela frase do Kerouac "porque será que Deus fez as pessoas tão tristes assim?"
A tristeza ainda vai demorar pra passar. Eu não vou tomar anti-depressivos e nem vou beber até morrer. Só vou beber, porque faria isso de qualquer jeito. As cicatrizes vão demorar pra sumir. Mas eu vou começar fazendo algo. Eu que já não acredito em quase nada. Eu tenho que começar de alguma maneira. E a melhor maneira que descobri é tirando alguns quadros da parede. Parece fácil, mas posso garantir que não é. Ou você já tentou arrancar seu coração e colocar ele em cima do aparelho de tv?
Mário Bortolotto



Foto Sissi
Uma brisa fresca transportava de longe fragmentos de vozes, risos, um som de água correndo, o frêmito ansioso das cigarras. Trazia também o cheiro verde do mato, um perfume adocicado a fruta madura, e com isso a memória límpida de outros tempos – eu, correndo à frente da chuva, saltando os largos muros de adobe dos quintais, roubando mangas das mangueiras altas, laranjas dos laranjais. Meninos dançando nos charcos, jogando futebol com uma bola de trapos, lançando ao céu papagaios de todas as cores. Abanei a cabeça para afastar aquelas imagens. Eram, de alguma forma, a minha eternidade.
 
José Eduardo Agualusa in Um estranho em Goa
Foto Isa P
De sonhos e pesadelos...em qual escala fazê-los medir? Os sonhos são importantes. Grandes e eternos, já os pesadelos tem natureza de contraponto.

João Guimarães Rosa


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Foto Meira 888
A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora
Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora
O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja o dia ainda não raiou
O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor
O grande poder transformador

Caetano Veloso

Esse samba hoje tem nome: Sandra!
Thanks por um dia você ter cruzado meu caminho e ainda me fazer crer que a vida vive!
Todo meu respeito, meu carinho, minha gratidão.


Foto Lenise Pinheiro

E chorava. Chorava sempre que comia. Grãos e gotas se misturavam nos lábios, não sabia que tristezas se me enrolavam na garganta. Minha vida me sabe a sal. Por isso me dá pressa de sair destas praias. Para esquecer, para sempre, esse sabor de maresia.

Pela lágrima nos despimos. O pranto desoculta a nossa mais íntima nudez.

Ambos de "A varanda do frangipani", do Mia Couto.


Uai? Nós vive... foi o respondido que ele me deu. Mas eu não quis aquilo. Não aceitei. Questionei com ele, duvidando, rejeitando. Porque eu estava sem sono, sem sede, sem fome, sem querer nenhum, sem paciência de estimar um bom companheiro. Nem o ouro do corpo eu não quisesse. Discuti alto. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruím ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado...”

João Guimarães Rosa in Grande Sertão: veredas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Hilda Hilst diz (sobre a sequência de poemas Alcóolicas) "quando os escrevi não bebi uma só gota. Algum gaiato dirá: bebeu milhares. Não. E espero que alguns "raros" tenham compreendido que é de uma outra embriaguês, de um fervor descomedido, o roteiro voluptuoso destes versos. É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de poeta".

(Cascos & Carícias & Outras Crônicas)

Então, o blog segue! Talvez um pouco mais triste, porque eu estou muito triste...
Segue acalentando a esperança de que toque os "raros"...
mas, principalmente, como tentantiva de extravasar o monstro irriquieto e estranho que mora dentro de mim!


Foi julho, sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
distancia meu rosto. Te pergunto:
De julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor;
De que me adianta a mim, te dizer mais?

Hilda Hist – Dez chamamentos ao amigo in Júblilo. Memória e noviciato da paixão.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Foto Patrícia Cohen
Eu só queria te contar
que eu fui lá fora e vi dois sóis num dia
e a vida que ardia sem explicação
sem explicação....
explicação não tem,
não tem!

Nando Reis

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Foto Catarina Marques II
Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
Palavra dócil
Palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra
Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra.

Chico Buarque

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Foto Acervo pessoal
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mario Quintana (A Rua dos Cataventos)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ilustração Oréli Gouel


Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer,

mas acha que devia querer outra coisa.

Adriana Falcão in Mania de Explicação.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ilustração Danuta W

Fica estabelecida a possibilidade de sonhar coisas impossíveis e de caminhar livremente em direção ao sonho.

Michel de Montaigne in Ensaios

(escrito lá pelos idos de 1580)

Ps: Os três posts do dia foram presentes respectivamente da Ju, da Paulinha e da Bella. Merci! Vcs avivam a lembrança de que amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito! Sempre!

Foto Sandra Marques

mas há a vida, que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

Clarice Lispector

Calma, tenha calma
Minha previsão do tempo
Diz que hoje não vai chover

Alma, minha alma
Voa leve pelo vento
E me leva até você

Você me faz bem quando chega perto
Com esse seu sorriso aberto
Muda o meu olhar, meu jeito de falar
Junto de você fica tudo bem, tudo certo

Vejo, eu sei que vejo
Mais estrelas que devia
Mas é que eu sou mesmo assim

Sinto, sinto tanto
A sua falta todo dia
Volta e traz você pra mim

Quem mandou você passar
Pelo meu caminho?
Quantas vezes eu vou ter que repetir?
Quantas vezes?
Você me faz bem quando chega perto
Com esse seu sorriso aberto
 
Muda o meu olhar, meu jeito de falar
Junto de você fica tudo bem, tudo certo

Thaeme Marioto

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Foto Raul Gonçalves

Hoje eu quero o frio
O vazio
Que a sorte deixou aqui.

Zélia Duncan e Lucina

Foto Alexandra Baptista

Todos os dias que depois vieram, eram tempos de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom - enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas

João Guimarães Rosa in Manuelzão e Miguelim

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Foto Acervo pessoal

Lhe cansavam, sim, as coisas sem alma. Ao menos a árvore, dizia ele, tem alma eterna: a própria terra. A gente toca o tronco e sente o sangue da terra circulando em nossas íntimas veias. E ficou. Parado, murchas as pálpebras.

Mia Couto in A varanda do frangipani

Ps: Pra Cláudia, um mimo para ser acrescido aos seus achados!
 
Foto Pedro Meira
Dia de chuva
é pra a gente rasgar cartas antigas...
Folhear lentamente um livro de poemas...
Não escrever nenhum

Mário Quintana
Ps: E haja faxina!

De volta, ao velho e conhecido caminho!


Reflexão de Lavoisier ao descobrir que lhe haviam roubado a carteira: nada se perde, tudo muda de dono.

Mário Quintana

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


Foto Reuters
 

Há um segundo tudo estava em paz...

Herbert Vianna 



Foto Jorge Rodrigues

Nessa noite, me custou ficar em mim. Meus olhos se alongavam a ponto de colher antigas tristezas. E se me inundaram as pestanas, encharcadas de tristezas. Chorava, afinal, de quê?

Mia Couto in A varanda do frangipani
Foto Isa P
 
vara o dia
varrendo a noite
cata um sonho
sonha um vento
algo que fique
por pouco
por muito pouco
um cisco que seja
algo que signifique

Alice Ruiz

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Foto Jorge Costa

A noite cedeu-nos o instinto
Para o fundo de nós
imigrou a ave inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
Para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada

Mia Couto
Foto Ramon Cesar

Se você quiser eu danço com você no pó da estrada
Pó, poeira, ventania
Se você soltar o pé na estrada, pó, poeira
Eu danço com você o que você dançar

Se você deixar o sol bater nos seus cabelos verdes
Sol, sereno, ouro e prata
Sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte do seu coração

Se você quiser eu danço com você
Meu nome é nuvem, pó, poeira, movimento
O meu nome é nuvem
Ventania, flor de vento, eu vivo em qualquer parte do seu coração

Se você deixar o coração bater sem medo

Lô Borges

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ilustração Marlowa

Toda brincadeira não deveria ter hora pra acabar


Foto Pedro Gonio

O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige, nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade in Amar se aprende amando

quinta-feira, 1 de outubro de 2009


Ilustração Shapiro

quando a ternura for a única regra da manhã!

José Luis Peixoto





Foto Tania Almeida
Me pergunto onde é que foi parar a minha fé

Voltou pra casa a pé
E ainda não chegou
Espero na janela
Tento não me preocupar com ela


Mas a fé, sabe como é que é,
Acredita em qualquer um
Tudo pra ela é comum
Tudo com ela é viável
E eu aqui um tanto instável
Meio no claro,
Meio no escuro
Tropeço enquanto procuro acreditar
Na leveza, na cidade
Na beleza que me invade
Na bondade dos automóveis enquanto imóveis em suas garagens
Me pergunto onde é que foi parar a minha fé
Nos tratados, nas palavras
Nos portões da tua casa
Nos transportes coletivos
Na pureza das torcidas
Gritando seus adjetivos
Espero, me quebro
Tropeço no escuro
E ainda procuro
A minha fé

Lucina/Zélia Duncan

Foto José Menezes

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.

O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.

O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.

Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado